O passado do planeta, revisado.

Publicado: 4 de março de 2010 por Titio em Floresta, História
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Como o povo que já passou por aqui provavelmente já percebeu, eu adoro História e histórias. E como bom geólogo frustrado fascinado pela paleontologia, não podia deixar de comentar duas ou três notícias que li hoje na Folha de São Paulo e Internet afora. Tais notícias são referentes a descobertas e estudos acadêmicos recentes, que provavelmente mudarão um pouco como a ciência vê a Terra e o Ser Humano de hoje.

Antes de qualquer coisa, lembro do Doutor Reinaldo Bertini, cara fantástico que me deu aula de Paleontologia na época da Unesp, e seu peculiar hábito de colocar trechos de letras de suas bandas favoritas (que incluíam The Doors, Pink Floyd e Zeppelin) no final de cada folha de descrição das tarefas do laboratório. Pensando nisso, recomendo ler o resto desse post ouvindo essa música:

Comecemos com o mais antigo:

O Avô dos Dinos.

Asilisaurus kongwe. Esse é o nome do bicho. Os fósseis de pelo menos 14 exemplares foram encontrados no sul da Tanzânia (na África, não a Tasmânia, na Oceania), o que possibilitou uma reconstrução quase completa de um esqueleto. Tinha de meio a um metro de altura, três de comprimento e estima-se que podia pesar até 30 quilos.

"Hmm, que fíbulas sensuais você tem..." - Créditos: Info Abril

Apresenta dentes pequenos, uniformes (homodonte) e serrilhados, o que sugere um animal herbívoro, mas também apresenta duas fenestras (aberturas no crânio) para inserções musculares, o que pode sugerir que o animal podia ter um hábito alimentar misto de carnívoro e herbívoro.

O mais fascinante é que o réptil data do eo-Triássico (nos primeiros 10 milhões de anos da era dos dinossauros, o Mesozóico), mas de pelo menos 10 milhões de anos antes dos dinossauros conhecidos (que surgiram há 230 milhões de anos, também no Triássico). Isso indica que os Dinossauros, à nossa semelhança, também tinham parentes distantes, hoje conhecidos como Silessauros. Só para haver uma comparação, os Silessauros eram para os Dinossauros o que hoje os Símios são para nós (a comparação na realidade deveria ser mais profunda, mas vale a nível informal). Outra implicação é um ancestral comum entre os Dinos e os Silessauros, que se estima ter existido há uns 245 milhões de anos.

Bonitão na foto.

Foi identificado por pesquisadores da Universidade do Texas, coordenados por ninguém menos que um cara chamado Sterling Nesbitt.

É do Brasil!

Outro ser do Triássico, dessa vez da porção superior do Período (o Triássico vai de 200 a 250 milhões de anos atrás), com 220 milhões de anos. O nome do bicho é bem complicado…

"Trucidocynodon riograndensis. Prazer." - Créditos: Adolfo Bittencourt

Trucidocynodon riograndensis (fale três vezes, bem rápido). Acertou quem disse que foi descoberto no Rio Grande do Sul.

Um gaúcho, exatamente. Que segundo o nome, trucidava geral. Trocadilhos à parte, pode-se perceber só olhando pra dentição do bicho que ele era mesmo um carnívoro (heterodontia, dentes grandes, afiados e curvados para dentro e um canino auxiliar lá no fundo da boca). A partir de um esqueleto quase completo e outros exemplares incompletos, o povo da UFRGS pôde imaginar até mesmo como o animal se locomovia, com apenas as pontas das patas dianteiras tocando o chão (obviamente era quadrúpede, as outras duas patas tocavam o chão totalmente), levando-os a inferir que o animal era um corredor super ágil.

Olhando assim, com toda essa pompa de corredor ágil e superpredador, imaginamos um ser do tamanho de um jaguar ou algo do gênero. Surpresa: o animal chegava a um metro e vinte de comprimento, e quando apoiado nas 4 patas, não passaria da altura do joelho de um homem adulto. Pesava no máximo 20 kg.

"Rawrrr..."

Ele faz parte de um grupo chamado Cinodontes. Grupo esse que apresentava uma tendência para a miniaturização. Certas espécies desse grupo, as menores, sobreviveram às mais variadas catástrofes para depois dar origem ao que hoje chamamos de mamíferos. O riograndensis obviamente não foi um desses sortudos.

Que asteróide?

Sabe aquela história que nos contam que foi um asteróide que causou a extinção dos dinossauros? Mais uma vez, essa teoria foi posta em cheque.

Isso vai deixar uma cicatriz...

Pra quem não sabe, dizem as pesquisas que um asteróide bem grande acertou a Terra (causando a cratera de Chicxulub, no México) e levantou uma núvem de poeira gigantesca que cobriu o céu por um bom tempo, não permitindo a entrada de luz e energia solar, bem como causando o aparecimento de vulcões e eventos tectônicos que ajudaram ainda mais na extinção em massa das espécies que então estavam por aí. A evidência disso é o aparecimento de camadas de sedimentos vulcânicos, cinzas, e coisas que foram ejetadas nesse impacto por todo o mundo, datando de períodos semelhantes (o final do Cretáceo/Mesozóico). Calcula-se que tal asteróide seja um fragmento de um objeto bem maior, que se chocou com outro, também muito grande em algum lugar entre Marte e Júpiter.

No entanto, pesquisadores cariocas avaliaram o albedo (quantidade de reflexão da luz) dos restos desse objeto que ainda estão por aí pra avaliar sua composição química, e a compararam com a composição dos sedimentos encontrados nessa camada. E descobriram que os dois não batem.

Está tudo escrito aí. Consegue ler, mané? - Créditos: Glen Larson

Conhecendo a comunidade científica, dá pra ver que tudo isso ainda vai dar muita discussão.

Moral da história: O passado não é tão claro quanto parece. Nem o futuro.

PS.: Abraço pro povo da Geologia da UNESP. Vocês são foda pra caralho!

por Titio Pentelho.

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